Porque, vendo eles as multidões, compadeceu-se delas

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Porque, vendo eles as multidões, compadeceu-se delas

O relato dos Evangelhos revela que Jesus nunca deixou de atender a um pedido de misericórdia. Ele não se importava em parar o que estivesse fazendo para responder ao clamor de um ser humano em aflição. O que motivava o coração do jovem mestre galileu era a compaixão, sentimento profundo que o movia à ação imediata.

As curas e os exorcismos, por exemplo, mostram Jesus confrontando a doença, a morte e a possessão maligna, agindo com poder sobre circunstâncias que traziam muito sofrimento à vida daquelas pessoas. No caso dos leprosos, a cura significou “purificação” e retorno à vida social e religiosa (Mc 1.40-45; Lc 17.14-19); para os cegos, a cura trouxe à luz, literalmente, todas as oportunidades para uma vida normal (Mt 9.27-31; Lc18.35-43); à mãe viúva de Naim, Jesus restituiu a esperança e o amparo (Lc 7.11-17). Ele libertou o menino possesso e ofereceu a seu pai a “cura” para sua falta de fé (Mc. 9.17-27). O homem geraseno saiu das trevas da loucura para uma vida de testemunho sobre o quão misericordioso Deus tinha sido para com ele (Mc 5.1-20).

Curando e libertando, Jesus mostrou sua identificação com o sofrimento das pessoas. Ele alimentou as multidões, ensinou aos discípulos que todas as necessidades humanas são alvo de sua preocupação e que a fé é elemento fundamental para a missão no mundo (Mt 14.14-21; Mc 8.1-10). Ele também mostrou que não é preciso muito – alguns pães e uns peixinhos foram suficientes para o Messias. Jesus viu que o que os discípulos realmente precisavam – e nós ainda precisamos – era de um coração misericordioso e da fé que pode mover montanhas.

Em seus ensinos, a misericórdia ultrapassa as diferenças étnicas e religiosas, as preferências sociais, os compromissos eclesiásticos, como na parábola do bom samaritano (Lc 10.25-37). A compaixão que Jesus requer de seus discípulos rompe paradigmas porque não tem base na medida humana, o padrão é o próprio Deus: “Sede misericordiosos, como também é misericordioso o vosso Pai”(Lc 6.36).

Este é, afinal, o Jesus que os Evangelhos apresentam – aquele que se aproximava dos marginalizados em amor. E quem são os marginalizados de hoje? A quem a igreja precisa alcançar e tem se esquivado de fazê-lo? Por que razões religiosas ou sociais nós cristãos temos “passado de largo” quando vemos uma pessoa largada à beira do caminho, em dores e sofrimentos? Por que a multidão ainda tenta calar aqueles que clamam “Filho de Davi, tem compaixão de mim!”? Responder a perguntas como essas é crucial para a igreja, pois a missão encarnacional de Cristo baseia-se no amor, na compaixão, e transtorna todos os modelos pecaminosos de relacionamento, moldando-os segundo os parâmetros da graça de Deus.

O Cristianismo é um chamado radical à obediência, seguindo os passos de compaixão de Jesus, o que exige uma igreja encarnada, mergulhada reflexivamente em sua realidade, sem medo do que vai encontrar e disposta a fazer alguma coisa. Quando age misericordiosamente, a igreja assume a sua missão integral no mundo, assim como toda igreja engajada na missão integral o faz porque a compaixão do próprio Deus tocou seu coração. Uma igreja em missão é uma igreja
compassiva, e vice-versa.
:: Lícia Rosalee/ Ultimato

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