Tudo atualizado. Tudo descartável

Tudo atualizado. Tudo descartável

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Nunca uma geração esteve tão ocupada em sua rotina como os jovens e adolescentes de hoje, e, mesmo assim, parece que, quanto mais ocupados, menos produtivos são. Temos jovens ganhando dinheiro cada vez mais cedo, e a cada dia os líderes e chefes não conseguem entender esses jovens, e vice-versa. Os casais estão tendo filhos cada vez mais tarde e a distância cultural entre um pai e um adolescente não é de trinta anos, mas de séculos. Com isso, os pais não conseguem mais educar os filhos, pois não os entendem.

Parece que a ruptura foi tão grande que a informação já não consegue ser transmitida entre pessoas com diferença de duas ou três décadas de idade. Isso sem falar da crise pedagógica e estrutural que estamos vivendo com os professores e escolas na nossa década. Escolas centenárias estão sucumbindo por não terem percebido essas mudanças.

As coisas não têm mais o valor que tinham antes. Elas ganham e perdem valor de um dia para o outro. Como um vídeo viral na internet, como ações na bolsa de valores, como uma embalagem linda de uma lata de refrigerante ou até um aplicativo de smartphone que é vendido por bilhões de reais e em poucos meses ninguém mais quer usar. Uma pessoa mais velha saberia dizer facilmente quais são as coisas que possuem valor na vida e devem ser abraçadas e perseguidas, mas os jovens que estão vivendo o último salto evolutivo da informação não o saberiam, pois o que ontem teve valor para se apegar amanhã pode ser jogado fora.

Falando em jogar fora, você já pensou por que hoje se produz muito mais lixo do que há trinta anos? Não é simplesmente porque a população da Terra dobrou. Dessa forma, teríamos simplesmente dobrado o nosso lixo. O consumo per capita de lixo mais que dobrou. Nós produzimos muitas vezes mais que nossos avós.

Se você vive uma vida “normal” em uma cidade grande nos dias atuais, você pode perceber que tudo está desatualizado. Nada é atual, pois uma coisa que é inovadora e única, assim que se torna conhecida por você e, no mesmo minuto, por mais um milhão de pessoas da sua cidade, deixa de ser novidade e vira algo desatualizado, vira algo #old.

Um dos sintomas doentios daqueles que cresceram em um mundo onde a informação é excessiva é a sensação de que tudo é descartável.

Nessa velocidade da informação nada é muito pensado, pois não dá tempo para digerir novas ideias, novas informações, pois podem ficar velhas a qualquer segundo. A ruptura entre o consumir a informação e o colocá-la em prática é o comportamento mais esquizofrênico que estamos vendo nos dias atuais.

As pessoas que não se tornaram “peneiras” têm desistência precoce em suas ideias, pois, mesmo que consigam ter novas ideias “brilhantes” toda semana, não conseguem colocar nada em prática. Porque há sempre um pensamento atrás da orelha (sussurrando como a voz do Morgan Freeman) de que o tempo que elas vão levar para construir a sua ideia e fazê-la “rodar” já vai ser ultrapassado e não vai dar certo. Com isso, entram em pânico por verem que a vida está passando muito rápido (se acham velhas aos 30 anos) e não conseguem persistir em seus trabalhos, em suas ideias, em seus relacionamentos. Não conseguem cumprir o seu sonho de adolescente de se aposentar aos 30 anos.

[As pessoas] não conseguem entrar em um relacionamento sério, porque vivem o relacionamento virtual descartável e, quando conseguem se relacionar com alguém, não duram muito e logo se separam, pois aprenderam que tudo na vida é descartável e tem de ser trocado por algo novo, algo da moda, uma “marca” que vai trazer uma experiência nova.

Cruz-credo, estou parecendo um hipocondríaco! Vou parar de descrever os sintomas de pessoas que vivem como “esponja” em uma época de “peneiras”. Até porque não quero dar solução alguma neste capítulo. Quero apenas diagnosticar como é grave consumir freneticamente as informações que são despejadas hoje.

:: Marcos Botelho – Ultimato

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